Uma Análise Psicanalítica do Filme "Um Método Perigoso"

Administrador Geral

Administrador Geral Publicado 23/03/2021 


O filme Um Método Perigoso traz à tona uma questão técnica e ética colocada por Freud em Observações Sobre o Amor Transferencial (1915), que seria quando a paciente se apaixona pelo seu analista. O filme mostra que a relação analítica entre Jung e Sabina passa também a envolver relações sexuais entre eles o que vai de encontro ao que é proposto por Freud. Este considera que o analista não deve satisfazer o desejo da paciente, portanto deve-se manter abstinente, o que Jung não faz, assim como também não deve recalcar este desejo, pois seria o mesmo que trazer um conteúdo inconsciente à consciência para em seguida recalcá-lo novamente.


No filme a paciente alcança o seu objetivo, ou seja, ela satisfaz seu desejo, porém a finalidade da análise é comprometida. Verifica-se que no primeiro rompimento da relação sexual entre Jung e Sabina causa a esta uma crise. Posteriormente, eles voltam a manter relações sexuais, mas enquanto colegas de trabalho, e no segundo rompimento que é realizado por Sabina é Jung quem não aceita.


Podemos ver a relação transferencial se desenrolando através de várias cenas, como na que Sabina beija Jung, quando ela se excita quando ele bate no seu casaco, quando ela se interessa por saber da relação de Jung com sua esposa ou quando ela reage agressivamente no momento em que ele lhe diz que precisa interromper o tratamento durante alguns dias por causa do serviço militar. O beijo de Sabina o faz se colocar diante do seu desejo, ele não se posiciona diante do beijo, nem recua.


Freud (2006, p.178) coloca que a transferência positiva erótica (o que acontece na relação entre Jung e Sabina) traz desafios e dificuldades para a análise, visto que pode ser encarado com uma resistência, pois a paciente ficará focada apenas no seu amor e não terá insights sobre si. Caso o analista tenha relações sexuais com a paciente, se deixa de trabalhar o que está por trás deste desejo sexual pelo analista, da mesma forma se o analista ignora este desejo, a paciente pode se sentir humilhada e buscar se vingar.


Quando Jung rompe com Sabina e lhe diz que a única relação que eles podem ter é a de analista e paciente, como uma forma de afetá-lo, ela exige que ele conte a verdade a Freud para que este possa aceitá-la como paciente. E Sabina sabia das discordâncias teóricas que havia entre Freud e Jung.


Ao encontrar Sabina, Jung diz não poder mais continuar a relação, pois tem uma vida com a sua esposa. E com isso, resiste novamente de aceitar sua implicação na relação com Sabina. Doravante isso, Sabina diz não querer ser tratada da mesma forma que a esposa dele, mas sim ser punida. Aqui temos um enlace entre a resistência de Jung, a relação transferencial dos dois e o fenômeno da compulsão à repetição de Sabina (Jung deve nessa relação se colocar na posição de seu pai, já que ela sentia prazer quando ele a batia).


Ao se encontrar com Sabina, Jung se coloca em uma posição de poder de médico, falando inclusive que a relação deveria ser posta em níveis monetários para que isso e outros atributos presentificasse para ele que estava em uma relação terapêutica. Isso mostra uma tentativa de defesa extremada, ao passo que resistindo e colocando esses muros em seu enlace com Sabina, irá garantir ainda que minimamente o não afloramento do seu desejo.

Jung nega para Freud ter tido algum tipo de relação com sua paciente. Isso mostra que o mesmo está em uma encruzilhada entre o desejo de reconhecimento (em relação a Freud, já que por está implicado em uma terapêutica sabe dos efeitos disso) e o reconhecimento do desejo (em relação a si próprio e aos outros). Também diz a Freud que ela tentou seduzi-lo, usando de projeção para isso, para não tocar em um material que é puramente o seu próprio, assim resistindo mais uma vez.


No primeiro encontro entre Jung e Sabina, ela apresenta certa resistência a entrar em contato com conteúdos mais ameaçadores ao eu, pois ela fala superficialmente sobre humilhação e sobre o seu pai. Com o decorrer das sessões, ela vai confiando mais no analista e lhe diz que se excitava e gostava quando seu pai a batia, que se excitou quando Jung bateu em seu casaco, enfim que se excita com humilhação e dor. Ao dizer isso, ela fica visivelmente angustiada e diz ser “desprezível, nojenta, corrompida”, pois essa sensação vai de encontro com os valores morais da sociedade e é difícil para ela trazer esta experiência à consciência como sendo sua. Outro exemplo de resistência é quando Jung resiste com um discurso contrário (racionalizado), usando isso como forma de escapar das malhas do seu próprio desejo, ao se deparar com o discurso de Otto Gross, portanto pode-se dizer que este faz um papel de supereu tirânico.


A compulsão à repetição é também uma forma de resistência, já que o paciente transfere para o campo da ação o que ele não consegue lembrar. A tendência masoquista de Sabina pode ser uma compulsão à repetição que está presente ao longo de sua história desde a relação com seu pai quando era criança até na relação sexual com Jung. A compulsão enquanto uma resistência do Isso, enunciada na segunda tópica, é um fenômeno que advêm de um trauma que não pôde ser simbolizado. Em Sabina podemos perceber essa referência teórica no caso da relação que ela tinha com o pai. Por ser muito pequena na época, uma simbolização de forma correta não pôde ser feita havendo apenas um aumento traumático de tensão.


A experiência analítica seria, portanto, a via para que houvesse uma significação desse ato, fazendo com que o analisante se comportasse de outra forma. Essa significação viria exatamente via relação transferencial, pois seria nessa díade que o sintoma seria tomado, o que implica bem mais o analista na relação, causando assim sérios riscos ao manejo da transferência e ao tratamento em geral, pois o analista seria bem mais ativo nesta concepção da segunda tópica.


A compulsão à repetição também pode ser verificada na relação que Jung estabelece com suas pacientes, primeiro com Sabina, depois com Toni que apresenta características semelhantes às de Sabina fazendo ele se lembrar dela. Com Toni, Jung pode ter estabelecido uma transferência, onde ele atualiza a relação que teve com Sabina no aqui e agora da relação analítica. É importante ressaltar que Lacan (2009) encara o fato da transferência não como um fenômeno ilusório, como Freud afirma, o que mostra já uma flexibilização dentro da própria teoria da Psicanálise. A transferência se dá então com determinado analista e numa situação circunscrita.


A transferência, um fenômeno natural da neurose para Freud, envolve transferir sentimentos eróticos, hostis ou de qualquer outra natureza para o médico que não se justifica pela análise em si, mas que são derivados de outro lugar e que o surgimento de tais sentimentos é propiciado pela análise.
Apesar de Jung saber que o que faz é incorreto, pois ele está numa posição de analista, não consegue tomar um posicionamento. Fica entre se separar de sua esposa ou romper a relação sexual com a paciente, o que pode gerar certo conflito já que em um momento do filme ele é bastante moralista, sendo a favor da monogamia e diz que as pulsões sexuais devem ser recalcadas, sendo contrário as ideias de Otto Gross. Sobre isso Lacan diz: "Podemos dizer que se encontra uma resistência tanto maior, quanto mais o sujeito se aproxima de um discurso que seria o último e bom, mas que recusa de maneira absoluta" (2009, p.35)


Da mesma forma, Sabina também se casou com um homem que também é médico, assim como Jung. Isso mostra que a forma que eles se colocam no mundo, suas escolhas mantêm uma repetição de características, evidenciando certa forma de agir, que eles não sabem o motivo, mas compulsivamente agem da mesma forma.


No que se refere à relação entre Freud e Jung, este coloca Freud numa posição de autoridade já que ele o considera como uma figura de pai (como Jung coloca numa carta endereçada a Freud), mas também Jung exige de Freud um posicionamento de amigo e não de analista e quer que ele também compartilhe com ele seus sonhos, que lhe mostre seu lado mais vulnerável. Jung quer o reconhecimento e aprovação de Freud quando vem questionar a predominância da sexualidade em sua teoria e vem lhe propor estudos na área da parapsicologia, assim como é permeado por ódio, raiva quando Freud não aceita suas ideias e quando ele não sai de seu lugar de autoridade.


REFERÊNCIAS


BIRMAN, J. Arquivos do mal-estar e da resistência. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brazileira, 2006.


FREUD, S. Confererências introdutórias sobre psicanálise (Parte III), 1916-1917. Edição Standard brasileira das Obras completas de Sigmund Freud, vol. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996

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__________ O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos, 1911-1913. Edição Standard brasileira das Obras completas de Sigmund Freud, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


KUERMANN, D. Presença sensível: a experiência da transferência em Freud, Ferenczi e Winnicott. Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 41, n. 75, p. 75-96, 2008.


LACAN, J. Os Escritos Técnicos de Freud (seminário 1). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009. 

 

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